Quando mergulho, desperto
É quando a dama da noite repousa sobre o mundo que encontro o lugar para onde sempre pertenço. Não sei se o invento ou se apenas o recordo. Ali, tudo existe antes mesmo de receber um nome.
As montanhas não precisam ser vencidas. Os rios não procuram um destino. As árvores inclinam seus galhos como quem reconhece um velho amigo. Caminho por paisagens que nunca vi e, ainda assim, me recebem com a intimidade de uma casa.
O vento atravessa meu rosto sem levar nada embora. Ele apenas devolve. Devolve partes de mim que a pressa esqueceu pelo caminho. Há lagos tão transparentes que parecem guardar o céu em silêncio. Há flores que desabrocham sem testemunhas. Há uma luz que não nasce do sol, mas de tudo aquilo que finalmente encontra o seu lugar.
Vibro na energia daqueles que me acompanham e percebo que todos e tudo me pertencem, assim como eu pertenço a eles. Então compreendo que talvez a liberdade nunca tenha sido voar. Talvez sempre tenha sido lembrar. Lembrar de quem somos antes do medo, antes da pressa, antes de acreditarmos que estamos separados de todas as coisas.
E quando, do alto da mais profunda queda d’água, entrego meu corpo ao vazio, não existe queda. Existe retorno. Porque é somente quando mergulho nesse lugar que volto à superfície um pouco mais inteira. E é justamente então que desperto.
Nina Habib
